(...) - Sabias que acaba de ser descoberto um planeta misterioso, onde vivem alguns milhões de seres inteligentes que andam sobre duas pernas e vêem o planeta através de duas lentes vivas? Tive de confessar que desconhecia por completo.
- Esse pequenino planeta é atravessado por uma complexa rede ferroviária, sobre a qual esses indivíduos se deslocam de um lado para o outro em carruagens coloridas.
- É assim mesmo?
- Com certeza! Nesse mesmo planeta, essas criaturas enigmáticas construíram edifícios gigantescos com mais de cem andares. E, por baixo dessas construções, escavaram extensos túneis subterrâneos, podendo deslocar-se através de umas engenhocas eléctricas que se movem sobre carris.
- Tens a certeza absoluta?
- Absolutíssima!
- Mas... porque é que nunca ouvi falar desse planeta?
- Bem, receio que fui eu o único a descobri-lo.
- Bem, receio que fui eu o único a descobri-lo.
- E onde é que ele está?
- Aqui. - disse ele, batendo com o pé no chão. - Este é o estranho planeta. E nós, somos os tipos inteligentes.
Olhei para ele perplexo. Mas depois de reflectir percebi que, de facto, tinha razão.
- As pessoas ficariam admiradas, se os astronautas descobrissem um outro planeta com vida. Só não se deixam admirar com o seu próprio planeta.
A maior parte das pessoas acha o mundo «normal». Por isso, passam a vida à procura de algo anormal, como, por exemplo, anjos e marcianos. E é assim, porque elas não compreendem que o mundo é um mistério. Eu era diferente. Considerava o mundo um sonho estranho e andava à procura de qualquer explicação racional sobre tudo isso. E sentia-me triste ao pensar que nos habituamos a algo tão inconcebível como a vida. Ao princípio, enquanto crianças, temos indubitavelmente a habilidade de descobrir o mundo que nos rodeia. Mas, depois, tudo se torna um hábito.
Enquanto observava o céu, tive uma sensação desconhecida que nunca mais me abandonou desde então. Senti-me como uma criatura misteriosa que vivia, mas que nada sabia sobre a sua pessoa. Senti que era um ser vivo num planeta da Via Láctea. Senti que o meu corpo era algo inexplicável e alheio. Como seria possível que a pele, o cabelo, e as unhas crescessem em mim? Para não falar nos dentes! Não fazia qualquer sentido que crescesse esmalte e marfim na minha boca e que estas coisas duras fizessem parte de mim próprio. Parecia um mistério que as pessoas pudessem andar numa roda-viva, sem que se interrogassem sobre quem são e de onde vêm. Como é que se poderia ignorar a vida neste planeta ou considerá-la como um dado adquirido? Achava curioso que nós, seres humanos, que somos tão espertos para certas coisas, não soubéssemos mais sobre nós próprios. Nessa altura, o meu pai disse:
- Se o nosso cérebro fosse tão fácil de compreender, seríamos de qualquer modo tão tolos que não o conseguiríamos perceber. (...)
- Se o nosso cérebro fosse tão fácil de compreender, seríamos de qualquer modo tão tolos que não o conseguiríamos perceber. (...)
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