terça-feira, 5 de agosto de 2008

Criança aos Olhos do Mundo


Ela estava sentada à janela... chorando. Porque é que o mundo tinha que ser assim? Como ela queria que agora aparecesse o Peter Pan e a levasse para longe dali... para a Terra do Nunca... E não, ela não era nenhuma criança. E por isso mesmo chorava... tinha saudades dos seus tempos de infância... de quando não havia preocupações...
Será que era um acto de cobardia pensar em algo assim? Em vez de enfrentar os problemas, pensar em como a nossa vida era boa enquanto crianças? Talvez... mas não o conseguia evitar. Ela adorava o Peter Pan quando era pequena. Era a sua personagem de banda desenhada favorita. Não sabia bem porquê. Se era devido ao facto de ele poder voar, se era porque também não queria crescer, ou apenas porque ele a podia levar para onde havia sereias, piratas, índios... onde não havia preocupações... nem adultos. Lembra-se de um dia... ainda em criança, a primeira vez que lhe tinha sido contada a história do Peter Pan. Lembra-se de passar a noite toda na janela, onde se encontrava agora, esperando. Lembra-se da chuva a envolver. Lembra-se da lágrima que rolou pela sua face, sendo engolida pela chuva, quando a verdade lhe foi lentamente desvendada. Lembra-se de se sentir iludida e de chorar toda a noite. Sorri tristemente ao pensar o quanto ingénua fora. Às vezes pensava na razão que levava os adultos contarem certas coisas às crianças. Coisas como o Pai-Natal, fadas, duendes, princesas e príncipes encantados. Para quê alimentar a ingenuidade da criança? Para quê empurrá-la à força para o mundo da magia, da paz e do amor? Apenas para que um dia descubra que nada é assim, tal como eu descobri. Há dias conheci uma criança. Simpatizei bastante com ela. Uma colega minha sentiu-se mal. Essa criança, perguntou inocentemente a razão da sua mal disposição. E uma outra colega minha deu-lhe a resposta fácil e clássica, dizendo-lhe apenas que tinha “dói-dói”. A criança nada mais disse, olhando seriamente para as minhas colegas, vendo-as a afastar-se. Mal elas se afastam o suficiente, dirige-se para mim olhando-me com os seus olhos azuis penetrantes e diz-me com a sua voz de criança tão matura para a idade: “Explica-me o que realmente aconteceu se faz favor. Olha que eu já não sou nenhuma criança.” Olhei para ela espantada e sorri, concordando e dizendo-lhe o que tinha realmente a minha colega. Muito gostavam os adultos de subestimar a compreensão da criança. E isso, de certa forma, frustra-me. Frustra-me porque mesmo já não sendo nenhuma criança, sou também vítima das subestimações dos adultos. Eu sempre tive uma mente um pouco mais desenvolvida em relação à idade que tenho. Isto disse uma vez uma psicóloga à minha mãe. Mas mesmo compreendendo muitas coisas... apenas me vêem como eu aparento ser. Frustra-me o facto de estar presa a este corpo tão jovem. De ser ignorada e julgada por pessoas mais velhas. Como eu gostaria de fazer tanta coisa... mudar o mundo... o Homem. Mas infelizmente não posso. Não posso porque sou pequena e frágil. Porque sou uma criança aos olhos do mundo
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1 comentário:

Tânia disse...

Em certas situações, os adultos simplesmente tentam adiar o nosso sofrimento.
Por isso, na altura em que nós queremos saber de tudo, não nos dizem... Dando respostas, como se ainda fosse mos pequeninos, e não compreendesse mos.
Há coisas que talvez os mais jovens não devam saber, naquela altura. Não que isso seja certo para nós, mas para eles sim!