domingo, 27 de setembro de 2009

Até Amanhã (2)

Paro junto da saída da escola uma última vez. Olho em volta. Vejo o contínuo a sorrir provavelmente divertido com toda aquela agitação e desejando boas férias a todos. É inevitavelmente um pouco ignorado por toda a gente, estando todos entusiasmados e ansiosos para saírem finalmente da escola e se sentirem oficialmente livres de tudo o que os prendeu durante um ano. Olho para o contínuo e retribuo-lhe os votos sorrindo tristemente. Há uma mistura de tristeza e alegria no ar. Despedem-se de mim sem grandes demoras e lamechices, tão banalmente como se nos fôssemos voltar a ver no dia seguinte. Era mais fácil assim. Para todos. Ninguém tinha ainda superado totalmente a ideia da separação. Com alguma comoção contida, mas decerto patente na minha voz, digo-lhes “Até amanhã!” e eles, sorrindo comovidos, tristemente me retribuem. Se ao menos eles soubessem, que não voltaria ali nunca mais. Que nada voltaria a ser o mesmo outra vez.
Olhei para a escola uma última vez, reparo em casa pormenor, cada traço que conhecia já de cor e salteado. Reparo em tudo aquilo que já se me tinha tornado indiferente devido à rotina. Observo as pessoas, aquelas que estimo, as que não gosto, as que não conheço mas que é como se conhecesse, pois todos os dias apareceram na minha vida. Despeço-me mentalmente de cada uma delas e tento reter todas as suas feições na minha memória. E aquela escola. Aquela que odiava desde o primeiro dia que lá tinha entrado. Aquela que era vítima de tantas piadas maldosas, por parte dos estudantes das outras escolas, e mesmo dos seus próprios estudantes. Agora sentia uma certa nostalgia. Chorava por dentro, mas por fora mantinha-me impassível. Talvez por orgulho, ou apenas por vergonha. Fixava-a, como se ela me estivesse a olhar também. Iam destruí-la e construir uma nova em breve. Não voltaria a vê-la assim. Nunca mais. Olhei para baixo, para os meus pés, e inspirando fundo dei o passo, que me poria fora daquele sítio para sempre. Fui invadida por uma estranha mágoa que me apressei a tentar afugentar. Olhei para ela uma última vez e baixinho, pronunciei: “Até amanhã!” e afastei-me, não voltando a olhar para trás.

5 comentários:

Afonso Arribança disse...

Tão bonito :o

Bia disse...

Omg este ainda esta melhor! ^^
É tão bonita a maneira como consegues descrever os teus sentimentos, é sei lá, mágico! Adoro os teus textos, os teus e os da marta +.+

"até amanha!" :)

blabla disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Unknown disse...

Fizes-te me sentir um formigueiro na barriga, ao lembrar-me do secundário
Grande texto!
:)

A Friend disse...

'Miga é contínuo e não quontínuo, está bom ?