Encontrava-me em Lisboa. O frio era tanto que penetrava por todo o meu corpo e fazia-me arrepiar da cabeça aos pés. O vento gelado e cortante enregelava os ossos e feria a pele. Tremia. O simples acto de respirar doía, fazendo arder a garganta. Os músculos estavam tensos, dificultando-me o andar. A respiração era irregular. Não sentia as mãos. Não sentia os pés. Não sentia a maior parte do corpo. Mas limitava-me a andar, quase correndo, tentando alcançar as passadas apressadas da minha mãe. Como odiava andar daquela maneira. Quando ando, gosto de andar com calma. Gosto de apreciar. Gosto de parar e de observar. Mesmo que passe pelo mesmo local todos os dias. Mesmo que este faça parte da rotina da vida. Parece que há sempre algo a descobrir. Há sempre mais uma flor, mais uma varanda, mais uma árvore.Neste dia, não sabia a razão da nossa pressa. Não sabia a razão do nervosismo, da inquietação que nos assolava. Acho que nem a minha mãe o sabia ao certo. As pessoas estão tão habituadas a correr de um lado para o outro que já se torna habitual. Já ninguém admira. Já ninguém pára para apreciar o que a Natureza nos tem a oferecer.
A minha mãe detém-se em frente de um grande edifício. Todo ele emanava imponência e altivez. As paredes eram frias e severas, desprovidas de qualquer cor. Ela pediu-me para aguardar no exterior, e eu de bom grado preferi não entrar. Aquele edifício intimidava-me. Claramente tinha sido concebido para ser funcional, e não para agradar à estética.
Cansada, encosto-me a uma parede e encolho-me o mais possível. Olho para as minhas mãos. Tinham pequenos cortes e sangravam devido às frieiras. Esfrego-as uma na outra na tentativa de as aquecer, mas sem sucesso. Os meus lábios encieirados tremiam convulsivamente. E esperava. Esperava pacientemente. Olho em frente e deparo-me com um pequeno jardim. Talvez nem se devesse intitular de jardim. Tinha sido apenas uma tentativa de adicionar uma pouco de espaço verde naquele local tão frio e inóspito. Detenho-me a olhar as poucas flores e arbustos que continha. Até que um homem me prende a atenção. Estava sentado num banco, e encontrava-se ligeiramente curvado. As calças rasgadas e desfiadas nos joelhos mal chegavam para tapar os seus finos tornozelos. Possuía uma camisa esburacada e larga, já sem cor devido ao uso. O casaco, puído nos cotovelos e demasiado grande, caía-lhe dos ombros em largas pregas. Calçava uns ténis rotos e sujos, completamente gastos. Os cabelos alvos e desgrenhados adornavam um rosto vincado por rugas profundas que acusavam a sua avançada idade. O seu aspecto denunciava há quanto tempo não conhecia o conforto de um lar, o prazer de um duche quente. Os seus olhos cinzentos escuros sobressaíam na pele pálida como carvão na neve. Perdi-me no seu olhar gélido. Havia tantas lágrimas aprisionadas por trás daqueles olhos, que a vida que lhe restava não chegaria para chorá-las. Não percebi se notou a minha presença, mas se o fez, não o demonstrou, continuando a fixar um ponto qualquer fora da minha percepção. Os anos em que vivera nas ruas tornaram-no imune ao frio. Mantinha-se impassível à brusquidão do vento. A dor que o assolava por dentro de certo não se comparava ao frio tremendo que presenciava.
Em tempos, teria sido um homem vigoroso e belo. Em tempos aqueles olhos tinham brilhado de alegria. Tivera uma família. Tivera um lar. Porém agora, o seu olhar despido de esperança inspirava-me uma forte compaixão. Algo tinha acontecido. Uma forte desventura tinha arrasado a vida daquele homem. Algo terrível.
De repente, o olhar cinzento fixou-se em mim com veemência. Eu estremeci, sentindo um aperto no coração mas aguentei-o. Logo a seguir, desviou-o com indiferença. Mas os seus olhos denunciaram uma estranha comoção. Quantas pessoas o teriam julgado pelo seu aspecto. Quantas pessoas o desprezaram. Quantas pessoas teriam medo de se aproximar dele. Quantas delas sentiriam até repulsa. Qual foi a última vez que aquele homem sentiu amor? A última vez que sentiu o calor e o conforto de um lar. A última vez que abraçou. Que sorriu. Quanta dor teria aquele coração aguentado. Senti um nó na garganta e uma lágrima gelada escorreu pela minha face.
Quantas vezes alguém se tinha sentado ao seu lado naquele banco? Alguém lhe tinha pedido que contasse uma das muitas histórias e vivências que se escondiam por trás do olhar cinzento. De repente senti um forte ímpeto de o abraçar. De me sentar ao seu lado. De o ouvir.
A minha mãe apareceu de repente assustando-me. Pegou-me na mão e disse-me para me apressar. Obedeci prontamente voltando ao ritmo apressado que tanto me irritava. Olhei uma última vez para trás e reparei que os olhos do homem se fixavam em mim. Não havia nada que pudesse fazer para aliviar a sua alma. Há muito que escolhera enfrentar o seu destino.
E com uma tristeza nostálgica, despedi-me do olhar cinzento.
2 comentários:
Um texto perfeito ana.
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